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Amor, Sexo e Erotismo

Amor, Sexo e Erotismo

Destino

30.01.21 | Inês

"Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta à outra.“

                                          Haruki Murakami

 

Ainda bem que sou tempestade...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um encontro às cegas

16.01.21 | Inês

PARA OUVIR DURANTE A LEITURA

Um desejo e fascínio pelo desconhecido. Um mundo diferente dos demais. Uma procura incessante de algo que desconhece e que lhe traz à memória as poucas brincadeiras que gostava quando era criança. Puzzles.

No seu quarto, sozinha, e quando já os tinha completos, desenhava peças novas e recortava-as para as juntar de novo. Preocupados com o sua obsessão, todos insistiam em dar-lhe outras opções. Inês não queria. Pedia sempre o mesmo. Mais e mais puzzles. Começou a recortar fotografias e a tentar encaixar os rostos em corpos que não lhe pertenciam, repetindo o processo inúmeras vezes. Formava peças isentas de sentido, forçando sempre a encaixá-las num espaço que não lhes pertencia. 

A Inês cresceu. Passou a interessar-se pelas relações humanas. Agora, tudo à sua volta se assemelhava a peças do jogo cada vez mais pequeninas e dificeis de juntar. 

Movida por esse desejo insaciável de perceber o mundo e as pessoas, decidira ir ao encontro de alguém que não conhecia. Ou melhor dizendo. "Conhecia" virtualmente. O encontro às cegas que nunca havia tido.

A mente dele era o seu "jogo" preferido. Ou seria a mente dela um jogo para ele. Uma mente brilhante. Inês tinha de saber como funcionam as mentes assim. Diferentes. O dito "normal" ela já conhecia. Não lhe despertava interesse. Era aquele homem, aquela mente que a seduzia. A sedução era tal que a sua mente lhe provocava algo semelhante a orgasmos. Invertidos. De fora para dentro. Sensações que implodiam como sopros, para dentro de si. Uma figura de estilo. Um pleonasmo, ela sabia-o. 

Estava a poucos passos de estar frente a frente com o desconhecido. Seguiu as pistas deixadas por ele. Sempre movida pela curiosidade e a adrenalina que tinha no corpo. O corpo começara a tremer, o coração pulsara depressa demais, a temperatura do seu corpo ia diminuindo. E, na tentativa de controlar o que sentira, treinava-se a respirar florescentemente. 

Abriu a primeira porta, seguiu o caminho de pétalas vermelhas iluminado por velas de aromas intensos. 

E, de repente, ao deparar-se frente a frente com ele, repara que ele tem algo na mão que em nada se assemelha a rosas, era a peça do puzzle em falta, e, em pânico, tenta fugir. Em vão. Nunca correra muito em criança. Afinal passava o tempo fechada no quarto a construir e descontruir puzzles. 

Nunca mais o iria voltar a fazer. A curiosidade matou a gata...

 

 

 

Ondes estás?

11.01.21 | Inês

 

Nenhum sonho custa tanto a abandonar como o sonho de ter uma alma gémea, nem que seja noutro canto do mundo, uma alma tão perto da nossa como a vida. O que é a alma? É o que resta depois de tudo o que fizemos e dissemos. Podemos traí-la e contrariá-la, mesmo sem saber, porque nunca podemos conhecê-la. Só através duma alma gémea. Fácil dizer. Agora como é que consigo falar?
As almas gémeas quase nunca se encontram, mas, quando se encontram, abraçam-se. Naqueles momentos em que alguém diz uma coisa, que nunca ouvimos, mas que reconhecemos não sei de onde. E em que mergulhamos sem querer, como se estivéssemos a visitar uma verdade que desconfiávamos existir, de onde desconfiamos ter vindo, mas aonde nunca tínhamos conseguido voltar.

O coração sente-se. A alma pressente-se. O coração anda aos saltos dentro do peito, a soluçar como um doido, tão óbvio que chega a chatear. Mas a alma é uma rocha branca onde estão riscados os sinais indecifráveis da nossa existência. Não muda, não se mostra, não se dá a conhecer. O coração ama. Mas é na alma que o amor mora. Todos os amores. Toda a vida.
A alma deixa o coração à solta, como tonto que ele é, e despreocupa-se e desprende-se do corpo, porque tem mais que fazer. E o que faz a alma? Mandar escondidamente na parte da nossa vida que não tem expressão material ou física. Está mal dito, mas está certo, porque estas coisas não se podem sequer dizer.

O quem e o quê não lhe interessam. A alma não deseja, não tem saudades, não sofre nem se ri; a alma decide o que o coração e a razão podem decidir. A alma não é uma essência ou um espírito; é a fonte, o repositório, a configuração interior. Expressões horríveis, onde as palavras escorregam para se encontrarem. Só resta repetir. A alma é de tal maneira que é aquilo, exactamente, de que não se pode falar.


A não ser que se encontre uma alma gémea. Gémea não é igual. É parecida. Não é um espelho. É uma janela. Não é um reflexo. É uma refracção.

Uma alma gémea é a prova que não estamos sozinhos. Ou seja: é a prova de que a alma existe. Não faz nem diz o mesmo que fazemos e dizemos — mas tem uma forma de fazer e dizer tão parecida com a nossa, que deixa de interessar o que é dito e feito. Uma alma gémea faz curto-circuito com os fusíveis corpo/coração/razão. Não é o «quê» — é o «porquê». O estado normal de duas almas gémeas é o silêncio. Não é o «não ser preciso falar» - é outra forma de falar, que consiste numa alma descansar na outra. Não é a paz dos amantes nem a cumplicidade muda dos amigos. Não precisa de amor nem de amizade para se entender. As almas acharam-se. Não têm passado. Não se esforçaram. Estão. É essa a maior paz do mundo. Como é que um ninho pode ser ninho doutro ninho? Duas almas gémeas podem ser.

Como é que se reconhece a alma gémea? No abraço. O coração pára de bater. A existência é interrompida. No abraço do irmão, do amigo, da amante, há sensação, do corpo, do tempo, do coração. Há sempre a noção dum gesto posterior. No abraço de duas almas gémeas, mesmo quando se amam, o abraço parece o fim. Uma pessoa sente-se, ao mesmo tempo, protegida e protectora. E a paz é inteira - nenhum outro gesto, nenhuma outra palavra, é precisa para a completar. Pode passar a vida toda. Não importa.

Quando duas almas gémeas se abraçam, sente-se o alívio imenso de não ter de viver. Não há necessidade, nem desejo, nem pensamento. A sensação é de sermos uma alma no ar que reencontrou a sua casa, que voltou finalmente ao seu lugar, como se o outro corpo fosse o nosso que perdêramos desde a nascença.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Explicações de Português'

 

Nos dias em que penso em ti, obrigo-me a olhar para um mapa igual a este... 

 

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E, por breves momentos, esqueço-me que a probabilidade te encontrar é menor do que levar com um meteorito em cima.

Eu não procuro alguém que me complete mas sim alguém que me transborde como o vinho transborda o copo.